Concurseiro: Dificuldades e perfil de quem busca estabilidade profissional

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Jovens estão cada dia mais cedo abrindo mão de festas para buscar aprovação em concurso público

O sonho da estabilidade profissional e financeira tem tomado cada vez mais força entre os jovens e adultos. Um dos caminhos escolhido é o do concurso público, onde o perfil do novo candidato é abrir mão de passeios, baladas e até namoro para focar em uma rotina dedicada aos estudos.

Com a concorrência acirrada, especialistas garantem que disciplina e comprometimento são palavras-chave para obter uma boa classificação na disputa. O atual concurseiro não espera mais abrir o edital para sair da zona de conforto, ele estuda constantemente a fim de agregar conhecimento e preparo para o dia da prova.

Com 12 anos de estrada em cursinho preparatório, Milda Mandetta já perdeu a conta de quantos ex-alunos conseguiram a tão esperada nomeação no funcionalismo público. A professora é proprietária de uma das instituições mais antiga do ramo em Mato Grosso do Sul. Na instituição, os concorrentes chegam a passar até 12 horas por dia estudando. O suporte é preciso ser trabalhado em todos os lados: familiar, emocional e físico para que o concurseiro não desista e nem se frustre durante a caminhada.

A diretora-geral lembra que, com o passar dos anos, os jovens estão ficando mais conscientes. Em busca da aprovação, o candidato começa a preparação meses antes da prova.

“Ele começa se inscrevendo em concursos com o ganho (salário) menor, quando é aprovado aí desperta a consciência para um cargo melhor, principalmente na área jurídica.”

Entretanto, é na Segurança Pública que a maioria dos jovens dá o pontapé para o funcionalismo público. “Quando lançaram os editais para a Polícia Militar e Bombeiros, o cursinho abriu aulas nos 3 turnos. Tivemos o record de 1.100 alunos inscritos.”

“A pessoa começava a se preocupar com a carreira pública a partir dos 24 anos, agora já temos adolescentes com 17 anos estudando e se preparando.”

Mandetta também relata que a primeira oportunidade normalmente aparece nos chamados “concurso de porta” – que são os de nível médio.

A compreensão das pessoas que convivem com o concurseiro também é fundamental nesta etapa. Nos anos de experiência, a professora já consegue trilhar o perfil de cada profissional.

“Quem passa para o Tribunal de Justiça, Receita Federal ou outros Tribunais sabe que por um breve período precisa abrir mão de muitas coisas e também precisa do apoio da família e do companheiro (a).”

Mudança de rotina

Apesar dos estudos serem diários, a rotina do aluno fica mais corrida nas vésperas das avaliações. Sem poder perder tempo, a dedicação é quase que integral. Este é o caso da psicóloga Suelen Guedes, de 29 anos. A jovem pediu demissão do antigo trabalho e se organizou em busca da carreira pública.

Há 4 meses a rotina de Suelen é resumida em acordar, separar a alimentação e ir para o cursinho. No caminho para a instituição, ela aproveita o tempo livre no ônibus parar abrir os livros e revisar a matéria.

“Eu fico aqui no cursinho o dia todo. Chego pela manhã, esquento meu almoço e como aqui mesmo para não perder tempo voltando para casa. Cada minuto é precioso.”

Sobre abrir mão da vida social, a psicóloga garante que vale a pena. “Acordo cedo, fim de semana serve para estudar e amigos chamam para beber, mas não dá. Eu esqueço do tempo, faço cronograma de estudos. Não tenho dúvida que será uma mudança de vida. Para ninguém é fácil.”

O atual concurseiro também realiza provas em todos os cantos do país. Antenados, os candidatos caçam editais nas áreas escolhidas. “É possível para todo mundo e muda a vida para sempre,” finaliza.

Coach

Para conquistar o lugar ao sol, Diogo Correa Matos de Sousa virou concurseiro profissional e hoje dá mentoria para candidatos inexperientes. Logo que se formou, o advogado sabia que queria seguir a carreira policial e, por este motivo, resolveu mudar radicalmente os hábitos.


Matos de Sousa conta que, em 2013, resolveu tirar a carteira da OAB (Organização dos Advogados do Brasil) como justificativa pelo esforço da mãe, na época cozinheira, para pagar sua faculdade.

“Com a consciência tranquila, eu me dediquei somente aos estudos para concurso público porque não queria advogar. Dediquei todas as horas do meu dia aos estudos para a PRF (Polícia Rodoviária Federal), mas, na ocasião, não tive resultado satisfatório. ”


Desempregado, a única saída para o recém-formado foi vender bombons para complementar a renda familiar e pagar o cursinho preparatório. O funcionário público lembra que o dia começava ainda durante a madrugada, mas o esforço foi compensado meses mais tarde.

“Acordava, separava meus doces, vendia no cursinho e voltava para casa para estudar. Minha primeira nomeação veio logo depois na Prefeitura Municipal de Campo Grande. Não assumi porque eu já havia sido aprovado na Assembleia Legislativa e estava esperando ser convocado. Fiquei em 10º na lista geral e ví que poderia passar em outro melhor.”

A facilidade de comunicação fez com que o policial legislativo oferecesse workshops e acompanhamento para novos candidatos. A história de vida e esforço também servem como exemplos para incentivador outros jovens.

“Ainda estou acompanhando duas candidatas. Uma foi aprovada no último concurso da Polícia Militar e a outra teve boa nota na prova do Corpo de Bombeiros, estamos confiantes. Meu trabalho com elas termina quando elas assumirem o posto.”

Inquieto, Diogo ainda não conseguiu o cargo dos sonhos. Mirando em ser policial federal, o advogado garante que plano de saúde e convênios são apenas alguns dos benefícios adquiridos pelo concursado.

Dicas para iniciantes:

– Procurar um local adequado de ensino. Para o especialista, o maior problema é falta de disciplina. Procurar um cursinho e trocar experiências é essencial. Instituições preparatórias contam com professores que ajudam na caminhada.

– Ter um direcionamento para saber a área que você vai estudar. Querer fazer todas as provas, de todas as bancas acaba não passando em nenhuma, afirma Diogo. O candidato precisa de uma especialização. Os alunos estudam para passar para analista, PRF, TRT. Ainda que demore o edital, o candidato pode aproveitar para fazer para outros concursos, assim já vai estar preparado e à frente da maioria.

– Abrir mão de festas e baladas. A aprovação precisa ser propósito de vida. “Eu queria transformar minha vida. Estabilidade e poder ajudar família. Mudei hábitos e abandonei coisas. Muito esforço para resultado, muitas pessoas não entendem”, conclui.


Fonte Jornal Midiamax